Cotidiano

Vivendo como forasteira há 7 anos

October 6, 2021

Gosto da palavra forasteira, por isso a escolhi para escrever este post. Acho que ela soa mais parte da língua portuguesa do que estrangeira ou expatriada, pois estas me lembram palavras em inglês: stranger e expat. Forasteira é aquela pessoa que vem de fora, uma outsider, deslocada de seu lugar original. Combina com a forma como sempre me senti por conta dos meus gostos peculiares. Isso me tornou uma pessoa boa em encontrar e me conectar com pessoas com gostos parecidos aos meus e me fez explorar novos universos. Ou seja, eu já era meio forasteira mesmo antes de me mudar da minha cidade natal.

Agora, sou oficialmente forasteira, pois moro fora do meu país há 7 anos, não falo a língua local e não estou familiarizada com a cultura local. O fato de eu ter morado na Ucrânia antes de vir pra Holanda não faz com que a adaptação seja mais rápida, afinal, é outro país, outra cultura. Quando eu voltar para o Brasil, acredito que me sentirei ainda forasteira porque várias coisa mudaram ao longo desses anos. Essa sensação pode ser meio assustadora para algumas pessoas, mas pra mim é ok. No último inverno foi um pouco difícil por conta do lockdown, mas espero que no próximo seja mais de boa.

O livro “Americanah”, escrito por Chimamanda Ngozi Adichie, foi meu companheiro durante este fatídico inverno e conta, justamente, a história de uma forasteira que tem um blog. Me identifiquei com algumas partes da história da nigeriana Ifemelu e compartilho aqui algumas anotações que fiz ao longo da leitura.

Uma das coisas que mais me alegraram ao mudar do Brasil, foi ter a oportunidade de praticar e melhorar meu inglês. Por mais que eu já soubesse a língua, não tinha aquela fluência maravilhosa, ainda era um inglês meio capenga. Como várias coisas na vida, línguas exigem prática e eu não tinha muitas oportunidades de praticar no Brasil. Conviver com outros estrangeiros que não ligavam a mínima para o sotaque deles, me deu confiança para falar com meu sotaque sem medo de ser feliz. Chimamanda toca nesse ponto no trecho a seguir:

“Por que era um elogio, uma realização, soar como um americano? (…) Sua vitória efêmera havia criado um enorme espaço oco, porque ela assumira, por tempo demais, um tom de voz e uma maneira de ser que não eram seus. Assim, ela acabou de comer os ovos e decidiu parar de fingir que tinha sotaque americano”.

Aqui em Amsterdam, passo longos períodos sem falar inglês porque os amigos que tenho são brasileiros e ainda teve a pandemia que me impossibilitou de conhecer novas pessoas. Vamos ver como vai ser daqui pra frente.

Outro ponto que Chimamanda aborda, e que me identifiquei, tem a ver com perguntas invasivas que já recebi por conta deste blog e tive que dedicar um tempo para atualizar um post que recebia muitos acessos de pessoas que não acompanham o blog e, pelo visto, acham que eu sou alguma espécie de central de atendimento. Segue o trecho:

“Como conseguiu seus documentos? Ifemelu tomou um susto tão grande que ficou em silêncio. Era um sacrilégio, aquela pergunta; imigrantes não perguntavam a outros imigrantes como tinham conseguido seus documentos, não invadiam aquele lugar profundo e privado; era suficiente apenas sentir admiração pelo fato de que os documentos haviam sido obtidos e um status legal adquirido.”

Entendo que a situação no Brasil não anda fácil e que muita gente quer ir embora, mas cabe a quem quer tomar essa decisão, fazer todas as pesquisas possíveis e imagináveis sobre as regras do país para onde deseja ir. O local certo para buscar essas informações é a embaixada ou consulado do país de destino, não um blog encontrado no Google. Sempre respondi com educação aos que me enviaram perguntas e, depois que atualizei o post, nunca mais recebi nenhuma mensagem desse tipo. Enfim, vivendo e aprendendo. Ainda bem que Chimamanda e várias outras pessoas me entendem.

Fiz outras anotações, mas vou parar por aqui porque esse post já está imenso. Não registrava essa data há alguns anos aqui no blog e dessa vez resolvi postar fazendo um link com o livro da Chimamanda que estava comprado desde 2016, só aguardando o momento dele. Foi uma leitura muito gostosa e com certeza lerei mais obras dela. Quem tiver indicação, fique à vontade para deixar um comentário.

A foto que abre o post foi feita pela querida Ana Schuller, que tive o prazer de conhecer durante essa jornada como forasteira e blogueira.

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13 Comments

  • Reply Stéphanie October 6, 2021 at 7:23 pm

    Happy living abroad anniversary, from one outsider to another. I am English and live in England but because I moved so much as a child I felt like an outsider when I returned to the UK, and because I don’t have a local accent to the region I live in now (and nor was I born or raised here) I feel like somewhat of an outsider even now. I sometimes wonder what it’s like to live in one place for an entire lifetime. I guess we’re always curious about the path untravelled. I think your English is fantastic by the way, though I love that you keep this blog in Portuguese as English is so dominant, it’s good to celebrate mother tongues. I read Americanah last year, and have Purple Hibiscus on my shelf to read soon, too. I enjoyed Americanah as a series of essays on race, identity and belonging, it felt more like an essays collection than a novel though!

    • Reply Alê October 11, 2021 at 12:02 pm

      Dear Stéphanie, thank you so much for leaving this comment! Apparently, google translate worked pretty well. I must say I write in English better than I speak hahahaha And I agree with you about being curious about the path untravelled. I guess “Purple hibiscus” will be my choice in the future. And yeah, I think Chimamanda created the love story between Ifemelu and Obinze as a way to connect her essays on race, identity and belonging. I found some similarities between Nigerian and Brazilian cultures which made it pretty interesting for me.

  • Reply Emerson October 6, 2021 at 7:56 pm

    Que texto e fotos incríveis! Que bom que você está se adaptando no estrangeiro.

    Boa semana!

    Jovem Jornalista
    Instagram

    Até mais, Emerson Garcia

    • Reply Alê October 11, 2021 at 12:05 pm

      Muito obrigada, Emerson! Até mais.

  • Reply Váh October 6, 2021 at 8:28 pm

    Admiro sua coragem de ser uma forasteira! Aliás, forasteira é sim uma palavra muito legal haha 🙂
    Eu não me sentiria bem com essa sensação sabe? Gosto de sentir que faço parte do ambiente em que vivo, caso contrário é algo que me faz sofrer.
    Achei bem interessante que leu um livro de forasteira que tem um blog haha, não tem como não se identificar né?
    Gostei das suas observações sobre o livro e você!

    https://www.heyimwiththeband.com.br/

    • Reply Alê October 18, 2021 at 12:08 pm

      Oi Váh, entendo você porque tem muita gente que não se sente bem com essa sensação de não pertencimento. Por isso, acho que viver fora não é para qualquer um. A Chimamanda aborda bastante esse tema do pertencimento nesse livro, é muito interessante. Feliz que você gostou e caso leia, me conta da tua experiência. Beijos!

  • Reply Masha October 7, 2021 at 6:03 am

    Entendia a palavra “forasteiro” como um viajante, nunca me ocorreu que seria uma pessoa de fora, risos. Mas faz todo o sentido, né? Viajante também é de fora, eu acho. E é incrível como a gente cresce quando saímos do país, né? Eu morei na Noruega por 2 anos e sei que voltei outra pessoa. Sendo bem sincera, eu não sei se quero ir embora do Brasil novamente — quero que as coisas melhorem aqui, não quero ter que ir embora porque a vida aqui tá ficando insuportável. Mas isso se for possível ir embora, né. Mas ainda desejo viajar muito. E haja paciência pra lidar com gente que acha que a gente é Google ou atendente de SAC né. Beijinhos!

    • Reply Alê October 18, 2021 at 12:12 pm

      Oi, Masha! Sim, faz todo o sentido e eu adoro ficar fazendo essas associações. Você morou na Noruega, que legal! Eita lugar lindo neh? Tomara que a vida não fique insuportável pra você no Brasil e você não precise ir embora. E que realize seu desejo de viajar muito. Conhecer novos lugares, expandir os horizontes é muito legal, pelo menos pra mim. E sim, haja paciência hahahhaha Beijos!

  • Reply Bárbara October 8, 2021 at 9:00 pm

    A palavra forasteira é incrível mesmo! Eu também me incomodo demais com expatriado, mas mais porque as pessoas tendem a usar essa palavra ao invés de imigrante com um certo status, como se “expat” fosse melhor que “imigrante”. E sobre receber perguntas, acho natural. Ainda mais em momentos como agora, economicamente instáveis e tal. As pessoas procuram válvulas de escape mesmo, maneiras de fugir, e aí acabam vendo em brasileiros que moram fora uma oportunidade, uma alavanca, né? Eu me ofendia muito antes, achava que era preguiça da pessoa, mas tento entender que nem sempre é o caso. Tomara que agora com a reabertura você consiga explorar mais a Holanda e fazer mais amigos!

    • Reply Alê October 18, 2021 at 12:25 pm

      Depende muito do tom que a pessoa usa quando fala expat neh? Pra mim tem uma diferença em relação ao motivo que levou a pessoa a morar fora, mas não é o status, definitivamente. É natural receber perguntas, especialmente quando você tem um blog. Por isso resolvi atualizar o post muito acessado com informações úteis. A questão é que algumas pessoas abusam, mas eu deixo claro quando o limite foi ultrapassado. Quanto à Holanda, ainda estou meio cabreira com essa situação da pandemia que ainda não está lá essas maravilhas neh…

  • Reply Gabi October 10, 2021 at 11:28 am

    Adorei o post, e compartilho da antipatia da Bárbara pelo termo ¨expat”. Pra mim tem todo um que de white people querendo sair por cima da carne seca rs.. gosto mais de forasteira mesmo hahaha..
    Agora esse livro <3 Eu AMEI ele num grau absurdo, e por essas sutilezas todas. Inclusive ja tive isso, de querer ao máximo não ter sotaque… hoje tenho orgulho do meu sotaque, das palavras que fogem. Acho que morar fora também faz a gente ressignificar essas coisas…

    Enfim, quanto as perguntas sem noção: eu acho sem noção hahaha.. e acho ainda mais sem noção que o povo tem uma expectativa que você vá dar uma receita de bolo pra pessoa se mudar de forma legal, ter emprego, ser feliz e tudo mais. E quando vc não dá, não dizem nem obrigado. Dureza de falta de educação.

    • Reply Alê October 18, 2021 at 12:31 pm

      É, rola esses tipinhos sim. Mas é bom que eu já me afasto quando identifico gente assim. O livro é incrível neh? Também amei muito. Concordo super que morar fora faz a gente ressignificar muitas coisas.
      Amo que você captou exatamente o meu ponto hahahaha É como se eu fosse um grande oráculo das respostas quando eu não tenho nenhuma informação sobre a pessoa, muito menos obrigação de ter respostas para as perguntas dela. O último e-mail que recebi foi sem noção num nível que eu não consigo nem descrever…

  • Reply BA MORETTI October 27, 2021 at 5:47 pm

    comecei a ler teu texto e lembrei que tinha algo parecido no significado do meu nome, algo que pesquisei muuuuuito tempo atrás e não lembrava mais.

    fui pesquisar novamente: Bárbara: Significa “estrangeira”, “forasteira” ou “a estranha”. Bárbara surgiu a partir da palavra grega bárbaros, de barbar, que significa “língua incompreensível”.

    é tipo um estado de espírito né? independente de onde estamos. mas imagino que o fato de viver em meio a outra cultura, em outro lugar, deva realmente intensificar essa sensação 🙂 as vezes fico pensando se essa combo de coisas aleatórias que nos identificamos e que parecem destoar do presente são resquícios do que dizem ser vidas passadas. me fez lembrar justamente da série outlander em que essas “coisas” ficam bem marcantes com a claire vivendo basicamente com vivências do futuro no passado e vice-versa. enfim, me empolguei aqui na reflexão hahaha ♥

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