Viagens

Hora de nadar em outra direção

August 23, 2018

Ando sumida do blog porque a vida anda bem movimentada esse ano e tenho viajado bastante. Ainda nem tinha terminado de editar as fotos de Moscou e tive que viajar de novo para passar três semanas no Brasil e encerrar um ciclo da minha vida. Fui dizer um grande adeus à administração pública brasileira. Não vou entrar nos pormenores do processo para poupar vocês da chatice, mas o fato é que estou muito feliz que agora a fotografia é oficialmente a minha profissão.

Tem gente que não suporta mudar, eu adoro. Como diria Bowie, “Ch-ch-ch-ch-changes! Turn and face the strange”. Acho que tenho um espírito meio cigano. A ideia de passar 30 anos trabalhando no mesmo lugar nunca me agradou.  Nunca comprometi meu dinheiro pagando financiamento de imóvel porque tenho pavor de prestação. Ficar um longo período morando no mesmo lugar? No, thanks. Levei 33 anos pra mudar de cidade, mas mudei. Antes tarde do que nunca.

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Meu único vínculo com o Brasil agora são os familiares e os amigos. Foi a primeira vez que voltei sozinha e fiquei hospedada na casa dos meus pais. Foi bom poder passar um tempo com eles, comer a comida da minha mãe, assistir os jogos da copa, encontrar os amigos antigos e novos (encontrei em Brasília amigos que fiz em Kiev!). Deu tempo de fotografar um pouco também e compartilho alguns registros da minha cidade com vocês. Fotografei com uma lente que não costumo usar muito porque ela é lenta para focar, mas é boa para fotografar arquitetura porque não distorce muito as linhas.

Esse dia eu saí com um amigo porque fico apreensiva de sair com a câmera sozinha por lá e tivemos que dar umas desviadas de umas pessoas suspeitas. Essa é uma sensação que não faz mais parte da minha vida e da qual não tenho nenhuma saudade. Ser mulher no Brasil é tão mais difícil… Toda vez que eu pegava o uber, já entrava no carro com os alertas ligados e tinha que sempre mandar mensagem pra minha mãe com o nome do motorista e a placa do carro. Por duas vezes peguei motoristas do sexo feminino e automaticamente senti um alívio. Comentei isso com a primeira delas e ela disse “não deveria ser assim neh?”. Não deveria mesmo, mas infelizmente, é.

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Senti uma vibe pesada no ar, por mais que estivesse no meio da copa. A TV na casa da minha mãe estava sempre ligada transmitindo só desgraça, novelas péssimas ou os jogos da copa. As pessoas estão todas meio desiludidas, meio sem esperança, meio zumbis. Eu não assisto TV há muito tempo, então foi bem estranho ter ela tão presente assim durante essas três semanas.

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Depois de quase 4 anos morando fora, sinto que não faço mais parte daquela atmosfera. Sinto uma saudade saudável das pessoas. Hoje em dia dá pra manter contato mais fácil por conta da internet. Mas toda vez que vou pro Brasil, tenho que ficar me desdobrando para conseguir encontrar todo mundo e é meio cansativo. Percebo que as pessoas não se encontram mais, mesmo que morem na mesma cidade. A internet dá essa falsa sensação de que as pessoas estão próximas e aí elas nunca combinam de se encontrar. Me pergunto se elas estão se dando conta disso. Tão longe, tão perto feelings.

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Sei que a grana está curta pra muita gente e percebi que poucas pessoas quiseram sair para algum restaurante ou café e preferiram me encontrar em casa. Isso não é problema nenhum pra mim, adoro quando as pessoas me convidam pras suas casas, mas acaba sendo um reflexo da situação econômica também. Qualquer saidinha acaba saindo bem pesada no orçamento de muita gente. Porém, a natureza nunca decepciona e é de graça. Chama um amigo, vai caminhar, senta embaixo do bloco, fala sobre a vida. Brasília é um museu gratuito a céu aberto, não tem neve nem frio pra dificultar sair na rua. Tem um pôr do sol incrível, horizonte e o “céu azul de nuvens doidas”. A natureza sempre te abraça, basta estar aberto para receber esse carinho.

Adoro viver Brasília como uma turista. Poder almoçar fora do horário de pico, caminhar no fim da tarde enquanto as pessoas estão trabalhando, poder evitar os horários de muito trânsito. Enfim, ver a cidade de uma perspectiva completamente diferente da que eu via enquanto morava lá e vivenciar só as delícias da capital federal, alheia a todos os problemas. Espero ter conseguido captar em imagens a parte suave dessa experiência, a que eu realmente quero guardar na memória.

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