Gosto da palavra forasteira, por isso a escolhi para escrever este post. Acho que ela soa mais parte da língua portuguesa do que estrangeira ou expatriada, pois estas me lembram palavras em inglês: stranger e expat. Forasteira é aquela pessoa que vem de fora, uma outsider, deslocada de seu lugar original. Combina com a forma como sempre me senti por conta dos meus gostos peculiares. Isso me tornou uma pessoa boa em encontrar e me conectar com pessoas com gostos parecidos aos meus e me fez explorar novos universos. Ou seja, eu já era meio forasteira mesmo antes de me mudar da minha cidade natal.
Agora, sou oficialmente forasteira, pois moro fora do meu país há 7 anos, não falo a língua local e não estou familiarizada com a cultura local. O fato de eu ter morado na Ucrânia antes de vir pra Holanda não faz com que a adaptação seja mais rápida, afinal, é outro país, outra cultura. Quando eu voltar para o Brasil, acredito que me sentirei ainda forasteira porque várias coisas mudaram ao longo desses anos. Essa sensação pode ser meio assustadora para algumas pessoas, mas pra mim é ok. No último inverno foi um pouco difícil por conta do lockdown, mas espero que no próximo seja mais de boa.
O livro “Americanah”, escrito por Chimamanda Ngozi Adichie, foi meu companheiro durante este fatídico inverno e conta, justamente, a história de uma forasteira que tem um blog. Me identifiquei com algumas partes da história da nigeriana Ifemelu e compartilho aqui algumas anotações que fiz ao longo da leitura.
Uma das coisas que mais me alegraram ao mudar do Brasil, foi ter a oportunidade de praticar e melhorar meu inglês. Por mais que eu já soubesse a língua, não tinha aquela fluência maravilhosa, ainda era um inglês meio capenga. Como várias coisas na vida, línguas exigem prática e eu não tinha muitas oportunidades de praticar no Brasil. Conviver com outros estrangeiros que não ligavam a mínima para o sotaque deles, me deu confiança para falar com meu sotaque sem medo de ser feliz. Chimamanda toca nesse ponto no trecho a seguir:
“Por que era um elogio, uma realização, soar como um americano? (…) Sua vitória efêmera havia criado um enorme espaço oco, porque ela assumira, por tempo demais, um tom de voz e uma maneira de ser que não eram seus. Assim, ela acabou de comer os ovos e decidiu parar de fingir que tinha sotaque americano”.
Aqui em Amsterdam, passo longos períodos sem falar inglês porque os amigos que tenho são brasileiros e ainda teve a pandemia que me impossibilitou de conhecer novas pessoas. Vamos ver como vai ser daqui pra frente.
Outro ponto que Chimamanda aborda, e que me identifiquei, tem a ver com perguntas invasivas que já recebi por conta deste blog e tive que dedicar um tempo para atualizar um post que recebia muitos acessos de pessoas que não acompanham o blog e, pelo visto, acham que eu sou alguma espécie de central de atendimento. Segue o trecho:
“Como conseguiu seus documentos? Ifemelu tomou um susto tão grande que ficou em silêncio. Era um sacrilégio, aquela pergunta; imigrantes não perguntavam a outros imigrantes como tinham conseguido seus documentos, não invadiam aquele lugar profundo e privado; era suficiente apenas sentir admiração pelo fato de que os documentos haviam sido obtidos e um status legal adquirido.”
Entendo que a situação no Brasil não anda fácil e que muita gente quer ir embora, mas cabe a quem quer tomar essa decisão, fazer todas as pesquisas possíveis e imagináveis sobre as regras do país para onde deseja ir. O local certo para buscar essas informações é a embaixada ou consulado do país de destino, não um blog encontrado no Google. Sempre respondi com educação aos que me enviaram perguntas e, depois que atualizei o post, nunca mais recebi nenhuma mensagem desse tipo. Enfim, vivendo e aprendendo. Ainda bem que Chimamanda e várias outras pessoas me entendem.
Fiz outras anotações, mas vou parar por aqui porque esse post já está imenso. Não registrava essa data há alguns anos aqui no blog e dessa vez resolvi postar fazendo um link com o livro da Chimamanda que estava comprado desde 2016, só aguardando o momento dele. Foi uma leitura muito gostosa e com certeza lerei mais obras dela. Quem tiver indicação, fique à vontade para deixar um comentário.
A foto que abre o post foi feita pela querida Ana Schuller, que tive o prazer de conhecer durante essa jornada como forasteira e blogueira.



