Cotidiano, Cultura

A insustentável leveza do ser

July 16, 2020

Há dois anos, reli um dos meus livros preferidos da vida: “A insustentável leveza do ser” do escritor tcheco Milan Kundera. Fiz a primeira leitura em 2005 e assisti a adaptação do livro para o cinema um pouco depois. Gostei bastante da história, mas nessa segunda leitura, fez muito, mas MUITO mais sentido pra mim.

Na primeira leitura, eu nem sabia que o autor era tcheco e não tinha nenhuma informação sobre a primavera de Praga. Já na segunda leitura, além de ter essas informações, eu estava morando no leste europeu e já estava bem mais madura, com muito mais vivências, então a história ganhou outros significados, com muito mais camadas e me trouxe muitas reflexões sobre a vida e todos os seus contrastes.

Reler esse livro 13 anos depois foi uma experiência nova porque eu já não lembrava de várias coisas, como alguns personagens e o cachorro Karenin que tem um papel super importante na história, a começar pelo seu nome, uma referência a um personagem do livro Anna Karenina, escrito por Leon Tolstoy. Contei aqui que esse livro foi a minha primeira experiência com a literatura russa e conhecer essa obra trouxe informação extra para a história do Kundera. Inclusive, a minha edição desse livro tem uma ilustração do Karenin na capa, feita pelo próprio Kundera.

Fiz essa foto inspirada em uma das cenas do filme de 1988.

O livro que li em 2005 era emprestado de um amigo, daí em 2016 comprei uma edição em inglês porque achei a capa da edição em português muito feia (quem nunca?). Então, a experiência de leitura foi diferente também por conta da língua estrangeira. Além de um livro bonito na minha estante, também treinei meu inglês. Fora que eu acho que o título “The unbearable lightness of being” também soa belíssimo em inglês. O significado de light pode ser leve ou luz e a luz tem tudo a ver com fotografia. Tanto a fotografia quanto a escrita têm papel bem importante no destino de dois personagens e eu adoro como o Kundera insere isso na história.

Sou encantada com esse conceito de leveza e é algo que busco transmitir nas imagens que faço. Amo a forma como o Milan Kundera contrapõe conceitos ao longo dessa história. E ele constrói umas metáforas tão lindas e tão visuais! Gosto tanto dessa obra que tenho duas tatuagens relacionadas a ela. Uma foi pra marcar a mudança para a Ucrânia e a outra marca a mudança para a Holanda.

Essas fotos foram feitas no ano passado, quando minha amiga Mari, também fotógrafa, fez uma visita à Amsterdam. Eu estava trabalhando no meu portfólio e a chamei para fazer um ensaio. Nós trocamos muitas ideias legais sobre fotografia e sobre morar no exterior (ela mora em Berlim). Sabe aqueles papos que só dá pra ter com alguém que está vivendo algo parecido? No meio do ensaio a gente achou essas conchinhas no chão, depois a pena, e resolvemos incorporar esses elementos às fotos.

Inspirada por uma foto do Man Ray, Mari fez esse retrato meu com um filme Fuji Superia que dei pra ela.

Guardei a peninha porque queria fazer alguma foto depois e um dia tive a ideia de criar a imagem que abre o post, usando um espelho. Certamente essa ideia surgiu por conta dessa releitura. E olha que ela foi feita bem antes de eu assistir “Dark” e de tudo que vem acontecendo recentemente. Você também anda refletindo muito sobre as levezas e pesos da nossa existência? Consegue ver a leveza das coisas em meio ao caos?

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