Cotidiano, Cultura

Como era ouvir música na União Soviética?

February 6, 2019

Estava eu passeando casualmente pelo Kurazh Bazar no ano passado e resolvi parar para dar uma olhada nos LPs. Me deparei com vários discos de bandas famosas, mas tudo escrito em cirílico e achei as artes das capas muito engraçadas. Claro que levei pra casa uma edição do “Led Zeppelin IV” com uma capa muito peculiar. Quanto mais eu olhava para aquela capa e todos os seus detalhes, mais intrigada ficava. Lógico que dei uma fuçada nas interwebs pra ver se encontrava alguma informação e descobri várias coisas que serão devidamente compartilhadas nesse post.

Primeiramente, fiquei curiosa para saber se o disco era realmente do Led Zeppelin ou se era alguma banda da União Soviética tocando Led Zeppelin. Para a minha alegria, quando coloquei o disco para tocar, descobri que era realmente um disco do Led Zeppelin e com aquele barulhinho delicioso e nostálgico de disco de vinil antigo (os novos não possuem esse barulhinho, infelizmente). Na verdade, não era um disco, mas dois pelo preço de um porque veio também o “Houses of The Holy”.

As capas parecem com as capas originais, mas não são exatamente iguais. A foto do tiozinho deixa isso bem evidente, mas as criancinhas do “Houses of The Holy” quase me enganaram. Esses discos são de um selo chamado Antrop e as capas eram impressas em uma igreja de São Petersburgo. Quando vi essa informação sobre a igreja na contracapa, fiquei intrigadíssima pensando “uma igreja vendendo discos do Led Zeppelin? não faz o mínimo sentido!”. E foi assim que encontrei esse vídeo, onde o rapaz explica direitinho a história toda e mostra os discos da coleção dele (ele também tem esses do Led Zeppelin).

Igreja Evangélica-Luterana imprimia capas de bootlegs de bandas de rock ocidentais.

Andrey Tropillo era o dono do selo Antrop e ele trabalhava na Melodiya, que era a gravadora oficial de discos na União Soviética. Ele era produtor e engenheiro de som, e resolveu fazer umas cópias paralelas dos discos de bandas ocidentais. Para evitar problemas com direitos autorais das capas, ele criava essas versões alternativas, mudando alguns detalhes com colagens e tals. O papel usado nas capas é bem vagabundinho, fica na cara que é um piratão, mas o som dos discos é bem ok.

Dmitry era amigo de Andrey Tropillo e posou para a foto da capa alternativa.

Gostei tanto de descobrir essa história toda que acabei começando uma coleção de discos soviéticos. Contei nesse post que fui numa outra edição do Kurazh Bazar e garimpei mais uns disquinhos por lá. Minha professora de ucraniano também contribuiu para a minha coleção me doando alguns discos que ela tinha em casa.

Esse é da Melodiya.
Ganhei da professora 🙂

Os discos da Antrop são considerados um mercado cinza, mas na época do Stálin existia um mercado negro mesmo porque só era permitido ouvir música controlada pelo governo. As músicas proibidas eram gravadas em filmes de raio-X e por isso eram chamados de “bones” ou “ribs”. Durante a minha caça por informações sobre o bootleg que comprei, descobri o projeto X-Ray Audio.Vou deixar aqui embaixo o vídeo do Tedx Cracóvia de 2015, onde o criador do projeto, Stephen Coates, explicou como ele descobriu a existência e a história por trás dos “bones”.

Eu amo música e não consigo imaginar a minha vida sem essa forma de arte, então entendo completamente esse comportamento das pessoas se arriscarem para conseguir ouvir música censurada. Esse mercado negro existia para várias coisas, a música é só um exemplo. A arte é muito poderosa e não há censura que consiga detê-la. Sempre vai ter um subversivo pronto para quebrar alguma regra hehe. Espero que tenham gostado de descobrir mais um aspecto da história do leste europeu junto comigo.

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