Cotidiano, Cultura

Sobre fotografia de Susan Sontag

January 24, 2020

Em 2010, comecei a ler “Sobre fotografia” da Susan Sontag, mas nem cheguei a terminar o terceiro ensaio. Definitivamente, não estava preparada para encarar esse livro naquela época e abandonei a leitura. Resolvi começar a leitura novamente no ano passado e ela fluiu. É impressionante o quanto esse livro (lançado em 1977) continua absurdamente atual. A autora faleceu em 2004 e nem chegou a ver toda essa febre de redes sociais na internet e isso torna a leitura ainda mais impactante. Anotei vários trechos e refleti sobre muitas questões relacionadas à fotografia e à vida. Deixarei registradas aqui algumas das minhas anotações para vocês refletirem também.

Já começo logo com essa citação que tem tudo a ver com uns posts que já fiz aqui sobre tempo: “Fotos fornecem formas simuladas de posse: do passado, do presente e até do futuro”. Essa frase faz parte do último ensaio, intitulado “O mundo-imagem”. O livro contém 6 ensaios e uma “Breve antologia de citações”, a maioria delas de fotógrafos, mas há algumas de filósofos também. Afinal, a fotografia envolve muito pensamento, muitas questões, muitas reflexões.

É impossível falar de tempo sem falar de morte e é lógico que Sontag abordou esse tema logo no primeiro ensaio: “Todas as fotos são memento mori. Tirar uma foto é participar da mortalidade, da vulnerabilidade e da mutabilidade de outra pessoa (ou coisa), justamente por cortar uma fatia desse momento e congelá-la, toda foto testemunha a dissolução implacável do tempo”. Provavelmente, consegui me envolver melhor com esse livro nessa segunda leitura porque a maturidade chegou e, em 2010, eu estava em outro momento que não combinava nada com os temas abordados nesses ensaios.

Ela toca nesse assunto novamente no ensaio intitulado “Objetos de melancolia”: “A fotografia é o inventário da mortalidade. Basta, agora, um toque do dedo para dotar um momento de uma ironia póstuma. As fotos mostram as pessoas incontestavelmente presentes num lugar e numa época específica de suas vidas; agrupam pessoas e coisas que, um instante depois, se dispersaram, mudaram, seguiram o curso de seus destinos independentes”.  São tantas histórias que as fotografias podem contar, não é mesmo?

“Muitos se sentem nervosos quando vão ser fotografados: não porque receiem, como os primitivos, ser violados, mas porque temem a desaprovação da câmera. As pessoas querem a imagem idealizada: uma foto que as mostre com a melhor aparência possível. Sentem-se repreendidas quando a câmera não devolve uma imagem mais atraente do que elas são na realidade”. Esse é o grande desafio de fotografar pessoas porque não basta ser fotógrafo, tem que ser meio psicólogo. É aqui que entra a direção, a luz, os vários ângulos, a edição. Tudo para entregar uma imagem bela da pessoa. Porque fotografia é I-MA-GEM, não é realidade. Está fora do alcance do fotógrafo como cada pessoa lida com a própria imagem.

Ao longo da leitura, refleti muito sobre esse nosso mundo cheio de selfies, influencers, musas e musos fitness, tinder, manda nudes, memes, coaches e feeds perfeitos no instagram. E todas as comparações que adoecem um bocado de gente por aí. É interessante que o primeiro ensaio leva o título “Na caverna de Platão” e, em pleno século XXI, a humanidade segue venerando imagens surreais da realidade. Nas palavras da autora: “A humanidade permanece, de forma impenitente, na caverna de Platão, ainda se regozijando, segundo seu costume ancestral, com meras imagens da verdade”.

Susan Sontag por Diane Arbus (1965)

Susan era amiga da fotógrafa Diane Arbus, famosa por fotografar pessoas fora dos padrões, pessoas consideradas esquisitas, com alguma deformidade. Olha o que Susan escreveu sobre ela: “Quem poderia ter apreciado melhor a verdade das anomalias do que alguém como Arbus, que era, por profissão, uma fotógrafa de moda – uma fabricante da mentira cosmética que mascara as intratáveis desigualdades de nascimento, de classe e de aparência física?” Antes de começar a fotografar as pessoas fora dos padrões, Arbus trabalhava com moda e publicidade e imagino que ela devia ter várias questões em relação às imagens que criava. Então, ela decidiu dar visibilidade a essas pessoas anormais e reais em seu trabalho autoral, mostrar que elas existem e também fazem parte da sociedade.

O livro inteiro é cheio de reflexões maravilhosas e eu anotei váááários trechos. Procurei destacar aqui os que dialogam melhor com os tempos atuais. Acho incrível como muitas pessoas se perdem nesse mundo de imagens que não correspondem à realidade. Acredito que, tirando a fotografia documental, o resto não precisa ter compromisso nenhum com a realidade porque são imagens feitas a partir da realidade, não a realidade propriamente dita. Percebo a dificuldade que muitas pessoas têm de entender isso e como o fotógrafo ainda é visto como um mero apertador de botão que reproduz a realidade, quando ele é na verdade, um criador de imagens.

Enfim, a questão do que é real e do que não é real na fotografia é bem ampla e não dá pra chegar a uma conclusão em um post. A ideia era só deixar a pulguinha atrás da orelha e abrir espaço para questionamento. Me conta aí se você reflete sobre a overdose de imagens às quais somos expostos diariamente ou se nunca nem parou para pensar nisso. Deixo aqui uma última citação da Sontag para finalizar esse post: “Mas a força das imagens fotográficas provém de serem elas realidades materiais por si mesmas, depósitos fartamente informativos deixados no rastro do que quer que as tenha emitido, meios poderosos de tomar o lugar da realidade – ao trasformar a realidade numa sombra”.

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4 Comments

  • Reply Camila Faria February 4, 2020 at 11:55 pm

    UAU Alê, esse livro parece ser incrível. Não sou fotógrafa, mas adoro ler sobre fotografia. Recentemente reli o ótimo ‘Ver é um todo’ (Entrevistas e Conversas 1951-1998, do Henri Cartier-Bresson) e aproveito para te recomendar também. Beijos :*

    • Reply Alessandra February 6, 2020 at 10:49 am

      Oi Camila! Susan tb não era fotógrafa, mas conviveu muito com fotógrafos (foi companheira de Annie Leibovitz) e escrevia sobre outros temas. Fiquei doida para ler outros livros dela. Foi uma leitura maravilhosa, fiz várias anotações. Anotadíssima a recomendação do Bresson, vou procurar. Obrigada! Beijos.

  • Reply Clayci Oliveira February 11, 2020 at 1:09 pm

    Eu precisei ler esse livro no meu curso de fotografia e ele foi praticamente a base do meu TCC.
    Acho incrível a visão dela e fiquei refletindo sobre várias questões <3

    • Reply Alessandra February 12, 2020 at 10:45 am

      Que legal, Clayci! Imagino que você deva ter desenvolvido ainda mais todas essas questões no seu TCC. Muito obrigada por comentar! <3

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