Cultura

Procurando Lênin

January 24, 2019

Você não leu errado. Não é “Procurando Nemo”, é “Procurando Lênin” mesmo. Esse é o título do livro do fotojornalista suíço Niels Ackermann em parceria com o jornalista francês Sebastian Gobert. Em 2017, tomei conhecimento desse projeto fotográfico por conta de um artigo da Vice e fiquei doida para comprar esse livro. Até tentei me infiltrar num evento da comunidade francesa onde o Niels Ackermann estaria palestrando sobre o projeto aqui em Kiev, mas acabei desistindo.

Imaginem a minha surpresa quando descobri que esta exposição estaria em Moscou no mesmo período em que eu estaria lá? Era a minha grande chance não só de ter o livro, mas de ver as fotos impressas em tamanho grande. Quem acompanha o blog, já sabe que eu procuro sempre incluir alguma exposição fotográfica nas minhas viagens e lógico que essa teve prioridade no meu roteiro. Achei super ironia do destino conseguir ver essa exposição justamente na Rússia. Contei aqui que não consegui ver o corpo do Lênin no mausoléu, mas consegui ver essa exposição mara e trazer o livrinho comigo. No fim das contas, saí no lucro.

A ideia de procurar as estátuas do Lênin surgiu nos primeiros dias de protestos da Euromaidan, em dezembro de 2013. Um grupo nacionalista começou a destruir a estátua localizada em frente ao mercado Bessarabska, no centro de Kiev e deu-se início um movimento chamado Leninopad (queda de Lênin). No vídeo abaixo você pode conferir uma compilação de estátuas do Lênin sendo derrubadas em várias cidades da Ucrânia.

Comentei nesse post que em Moscou basta espirrar que brota uma relíquia soviética na sua frente, mas na Ucrânia há um esforço para se afastar desse passado soviético. As estátuas do Lênin representavam uma memória desse passado doloroso e serviam como um pilar ideológico, literalmente. Em 1991, haviam 5500 estátuas do Lenin espalhadas pela Ucrânia. Em maio de 2015, o parlamento aprovou uma lei que torna ilegal a glorificação de símbolos soviéticos, dando início a um processo oficial de descomunização da Ucrânia. Hoje não há mais nenhuma estátua do Lênin em pé no país.

Cartão postal de 1954
Localização das estátuas fotografadas

O legal desse livro é que ele não é apenas um livro de fotografia documental, mas é também um livro reportagem porque Ackermann e Gobert entrevistaram várias pessoas em várias cidades e todas essas informações são apresentadas no livro. O tema é bem controverso, já que o parlamento aprovou a lei banindo os monumentos, mas não definiu como esse processo seria feito nem o que seria feito com as estátuas, então a criatividade dos ucranianos tomou conta da situação.

O artista Oleksandr Milov transformou Lênin em Darth Vader
Pichação xingando o presidente da Rússia

Quando o assunto é Lênin, todos os ucranianos têm uma opinião sobre, seja contra ou a favor. E ainda vai levar algumas gerações para o espírito desse senhor deixar de habitar o imaginário das pessoas mesmo que as estátuas tenham desaparecido das cidades. Percebo que os ucranianos mais jovens têm uma visão mais realista do mundo enquanto os mais velhos ainda estão muito contaminados por toda a ideologia do período soviético.

Não é Lost in translation, é decommunisation!
Repara no tamanho dessa cabeça!

Acho fascinante ter vivido aqui nos últimos 4 anos e ver com meus próprios olhos todas as transformações que andam acontecendo. Além de estar o tempo todo aprendendo muito. Numa boa, nós brasileiros de maneira geral sabemos pouquíssimo sobre socialismo, comunismo, União Soviética e política. A democracia da Ucrânia é jovem e a do Brasil também e os dois países tropeçam bastante em vários aspectos.

Tio Vova é como Lênin era carinhosamente chamado pelas criancinhas soviéticas

Evito um pouco tocar nesses assuntos mais complexos, mas esse livro é muito incrível e seria um pecado deixar de compartilhar um trabalho tão rico como esse aqui com vocês. Especialmente nesse momento que o Brasil está vivendo. Seja qual for a ideologia, ela se torna muito perigosa quando segue para os extremos. E leva bastante tempo para consertar os estragos que ela gera na vida das pessoas. Precisamos ficar atentos.

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5 Comments

  • Reply Gabi January 24, 2019 at 9:09 pm

    Adoro esses posts, e adorei saber do livro, e já quero. Eu devo dizer que apesar de conhecer obviamente a “figura”, eu só fui ter uma interesse maior por Lenin quando assisti em 2004 o filme, Adeus, Lenin, um dos meus favoritos da vida. Sempre imagino que a gente não faz ideia de como era a vida, porque ninguém faz ideia de como era a nossa vida no Brasil, né? rs.. porque saberíamos da vida na UCRANIA? Então acho o máximo que você tenha vivido aí esse tempo, se aprofundado, e possa trazer um olhar todo interessante como o seu pra gente 🙂 Vou procurar o livro!

    • Reply Alessandra January 25, 2019 at 2:20 pm

      Aliás, esse filme é maravilhoso. Também é um dos meus preferidos. E o que vem acontecendo aqui é muito “a vida imita a arte”. E é isso, viver aqui e aprender tanto sobre como era e como é realmente a vida aqui nessa terra, é uma experiência muito rica e que eu vou levar para sempre comigo. E o melhor é que esse livro especificamente, conta uma parte da história recente, de um país em transformação. De repente aí na Suíça é mais fácil de encontrar esse livro, já que o Niels Ackerman é daí. Mas dá pra comprar pela amazon também.

      • Reply Gabi January 30, 2019 at 8:19 am

        Olha só, vou olhar! Hoje, por acaso, estou com a tarde “livre” (empacotar, empacotar, empacotaaaaar) hahaha.. quem sabe passo na livraria pra dar uma distraída!

  • Reply Izzy January 27, 2019 at 10:34 pm

    Adoro seus posts cheios de informação. Obrigada por compartilhar tudo isso com a gente.
    Concordo contigo, a gente sabe muito pouco (ou sabe nada mesmo) sobre esses assuntos. Por isso há tanta bizarrice sendo compartilhada e repetida automaticamente por aí. Fiquei boba com o número de estátuas: 5500! Isso dá mais de 10 estátuas para cada cidade da Ucrânia, por exemplo? E que livrão, Alê! Um pedaço da história na estante.

    • Reply Alessandra January 28, 2019 at 2:21 pm

      Tentando contribuir com um pouco de informação em meio a esse mar de desinformação. Exatamente, esse pessoal que espalha desinformação por aí sabe que a maioria das pessoas não sabe nada e também não checa fatos e sai compartilhando ou repetindo as coisas que nem papagaio. A Ucrânia é bem menor que a Rússia e lá tinha cerca de 7000, ou seja, a proporção é muito maior. Esse livro é uma pérola!

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