Esta tem sido a minha realidade desde o dia 24 de fevereiro, data da invasão na Ucrânia pelas tropas russas. O presidente da Rússia resolveu escalar uma guerra quando a vida por aqui estava começando a ganhar alguns tons de normalidade com a terceira dose da vacina e a reabertura das lojas, museus, restaurantes, cafés, etc. Digo escalar porque essa guerra começou no leste do país em 2014, ano em que me mudei para a capital da Ucrânia e criei esse blog.
Me mudei da Ucrânia há 3 anos (completados no dia 15/02), mas continuei tendo aulas de russo com a mesma professora com quem eu estudava ucraniano enquanto morava em Kyiv. Então, venho acompanhando os preparativos para essa possibilidade de invasão mais agressiva desde bem antes do dia 24 de fevereiro porque já se observava uma movimentação de tropas nas fronteiras e o governo ucraniano já vinha dando orientações para a população como, por exemplo, deixar uma mala pronta perto da porta com documentos e roupas, além de avisos espalhados pela cidade com endereços de abrigos/bunkers.
Porém, ninguém acreditava que essa invasão realmente fosse acontecer até o último minuto. Mas quando o presidente da Rússia soltou o famigerado vídeo sobre a “desnazificação” da Ucrânia, o prefeito de Kyiv decretou estado de emergência no dia 23 de fevereiro e as explosões começaram na madrugada do dia 24. Desde então, venho acompanhando essa guerra mesmo sem morar lá, checando onde estão os amigos, tentando ajudar com informações, contatos, buscando notícias em inglês, português, ucraniano e russo, combatendo desinformação pelos stories e tendo aulas de russo no meio do caos.
Na primeira semana, eu não conseguia comer nem dormir direito. À medida que os amigos foram dando notícias de que conseguiram sair do país, eu fui conseguindo voltar a comer e dormir. Mas a minha professora e toda a família dela continuam lá e meu coração quebra todos os dias com as notícias. Passo muita raiva também com a quantidade de besteiras que vejo sendo compartilhadas por brasileiros, especialmente os influencers de esquerda, que insistem em falar sobre um assunto que eles, evidentemente, não entendem. Mas querem abordar o assunto do momento para ganhar likes, shares, visualizações sem se importar com as consequências de seus atos na vida de milhões de pessoas. É impressionante como eles não percebem que estão se comportando da mesma forma que os apoiadores do presidente do Brasil.
Eu já sabia que essa guerra seria usada por oportunistas brasileiros (de todos os lados) porque esse ano é ano de eleição. São 8 anos acompanhando toda essa máquina de desinformação e esse foi um dos motivos pelos quais eu criei este blog. A princípio, eu queria entender o que vinha acontecendo e morando lá seria mais fácil ver tudo com meus próprios olhos (e registrar com a minha câmera). Venho compartilhando um pouco dos meus aprendizados com vocês aqui no blog e tentando juntar as peças desse quebra-cabeças. Porque eu era uma dessas pessoas que não entendia muito bem o que era socialismo, comunismo, nazismo, fascismo, URSS e quem foram Marx, Lenin, Stálin, Trotsky. E não tem como entender Ucrânia e Rússia sem saber tudo isso.
Não sei quando vou conseguir escrever aqui de novo, não sei o que está acontecendo agora enquanto escrevo este texto. Tudo acontece muito rápido no meio de uma guerra. A única coisa que eu sei é que cada dia fica mais complicado. Não sei se terei aula com a minha professora de novo na próxima segunda-feira, não sei se haverá um ataque nuclear que afetará a Europa inteira. Espero um dia poder voltar aqui para postar sobre coisas leves, legais e bonitas novamente.



