Cotidiano

Melhor queimar que desaparecer

November 7, 2018

Esse post era pra ter entrado no dia das bruxas, porém não consegui editar essas fotos a tempo. Bom, estamos atravessando tempos sombrios, às vezes dou uma choradinha, mas minha mãe me ensinou foi cedo a engolir o choro. A dor e a raiva são ótimos combustíveis para a criação e eu já estava com a ideia desse ensaio na minha cabeça há tempos, mas resolvi colocá-la em prática no dia do segundo turno da eleição. Votei e voltei pra casa pra fazer essas fotos. A arte sempre me salva e eu sou trabalhada nas trevas desde criancinha. Já tem um tempo que estou meio enjoada dessas fotos clarinhas que venho fazendo, então todo esse contexto foi um ótimo pretexto para colocar essas ideias em prática.

No final de 2009, o CCBB de Brasília organizou uma exposição maravilhosa sobre Clarice Lispector e o folder da exposição tem essa foto dela na capa. Nessa mesma exposição tinha um vídeo da última entrevista que ela gravou em 1977, alguns meses antes de morrer. Hoje você pode assistir essa entrevista incrível  no YouTube. Assisti novamente recentemente e me identifiquei com a fala dela em vários momentos. Além de trazer informações, o folder é um caderninho de anotações. Um dia eu estava arrumando umas coisas em casa e encontrei esse folder com anotações de “A paixão segundo GH” que um amigo me deu de presente de aniversário em 2010.

Uma das anotações é essa: “Então pela porta da danação eu comi a vida e fui comida pela vida. Eu entendi que meu reino é deste mundo. E isto eu entendia pelo lado do inferno em mim. Pois em mim mesma eu vi como é o inferno”. Hoje entendo que esse meu amigo enxergou algo de Clarice em mim e a vida me trouxe para morar na terra onde ela nasceu. “Será magia, milagre, miragem? Será mistéééééério?”. Como ela mesma disse na entrevista “e eu que sei?” [insira aqui uma risada de bruxa]

Desde muito criança tenho esse gosto inexplicável pelo estranho, para desespero da minha mãe que é extremamente supersticiosa e morre de medo do sobrenatural. Tenho a sorte do universo ter colocado no meu caminho várias pessoas estranhas como eu. Pessoas que gostam de música estranha, artes visuais estranhas, literatura estranha, roupas estranhas, enfim, tudo que foge do padrão, do convencional. Obrigada, universo!

Sempre achei um saco ser mulher e hoje entendo que minha melancolia vem daí. Levou bastante tempo pra eu entender que eu tinha que ter nascido mulher SIM e o mundo precisa de nós. Nosso poder natural amedronta há séculos. Poder de sangrar todo mês e não morrer, poder de gerar uma nova vida, poder de alimentar um outro ser, poder de amar esse novo ser a ponto de morrer para salvá-lo. Nosso choro é interpretado como fraqueza quando na verdade é um grande poder, poder de sentir e de colocar para fora esse sentimento. As bruxas que foram queimadas renasceram como a fênix numa versão muito melhorada com a liberdade conquistada a custa de muita luta. E a liberdade incomoda neh? Pois bem, vim pra esse mundo foi pra incomodar MESMO.

Precisei voar para um outro país para ter um distanciamento, pra silenciar as vozes que me atrapalhavam e poder me escutar, me encontrar. Já comentei aqui que digo várias coisas nas fotos porque quem fala demais é queimado na fogueira, mas tem como você dizer várias coisas por meio de metáforas que só os #entendedoresentenderão. Então, é melhor eu falar sobre as inspirações para essas fotos. Há algum tempo eu tinha colocado um autorretrato como foto de perfil no facebosta e um amigo comentou que eu sempre o lembrava alguém e com aquela foto ele finalmente descobriu que era a Annie Lennox. Cresci ouvindo Eurythmics e quem aí nunca ouviu “Sweet Dreams” deveria ouvir porque é um clássico. Depois desse comentário fui buscar umas fotos da diva e não é que concordei que tem alguma semelhança? Amo que ela é bem andrógina. Comecei a assistir um monte de videoclipes (obrigada YouTube) e o “Here comes the rain again” foi um dos que mais me inspirou e a música também é maravilhosa.

Outro videoclipe que mora na minha cabeça desde que eu tinha 12 anos de idade é o “Heal it up” da banda Concrete Blonde. A imagem de Johnette Napolitano é muito forte e a letra dessa música é maravilhosa. Mileanos mais tarde, descobri que a tatuadora Kat Von D é muito fã dessa cantora e tudo fez MUITO sentido. Por fim, outra inspiração foi “Elvira, a Rainha das Trevas”. Mais alguém aí assistiu todas as reprises desse filme nos anos 90? Para completar o combo de inspirações para essas fotos, tem o clipe de “Gimme Something Good” do Ryan Adams que convidou a diva Cassandra Peterson para reinar e a música também é excelente.

Autoconhecimento é tudo nessa vida. Para amar o teu reflexo no espelho é preciso se conhecer muito bem, enfrentar teu lado sombrio, com os fantasmas do passado, questionar as vozes que insistem em te sabotar, te depreciar. Para amar o próximo você precisa reaprender a se amar primeiro. Se você não consegue fazer isso sozinh@, busque ajuda profissional. Falo muito de viagens aqui no blog, mas a viagem mais desafiadora é para dentro de si próprio. Eu era uma criança bem “Fantástico mundo de Bob” e essa criança continua aqui dentro e agora ela foi resgatada das trevas. Me conta aí nos comentários o que você interpretou desse ensaio porque várias coisas foram ditas nessas imagens. Mas comenta com amor tah? Cuidem-se. Beijos de batom vermelho para @s bruxon@s.

You Might Also Like

12 Comments

  • Reply Ana Poli November 7, 2018 at 1:46 pm

    As flores, a caveira, as velas, o batom vermelho – tudo isso me remete muito à celebraçao mexicana do Dia de los Muertos. Os mexicanos tem uma relaçao muito diferente com a morte, que é realmente celebrada com uma grande festa no dia de todos os santos: comida, bebida, música, tudo isso em cima dos túmulos no cemitério. Eu acho tudo isso muito bonito porque também tem a ver com o “aceitar” que a vida acaba mesmo, mas enquanto estamos vivos também podemos viver “pequenas mortes” enquanto nos redescobrimos como pessoa, mudamos, crescemos. Será que consegui me explicar direito? 😀

    • Reply Alessandra Araújo November 8, 2018 at 4:16 pm

      É mesmo, bem observado! Interessante que aqui na Ucrânia eles também levam comida e bebida para o cemitério, tem até umas mesinhas com bancos próximo aos túmulos. Nossa, concordo com tudo que você falou e se explicou muito bem sim! Obrigada por comentar. <3

  • Reply Leonardo Lakonski November 12, 2018 at 2:09 pm

    Wooooow. Nunca vi vc escrever assim aqui. Eu sou homem e tenho essas características que vc citou, por isso sou mais estranho que vc, haha. O seu rosto me lembra a vocalista do The Cranberries. Eu tbm chamo facebook de facebosta, ou de foicebook, kkkk. Gosta de Bauhaus e Evanescence??? Eu tenho uma amiga chamada Ana Cristina Farago, ela tem um livro chamado “A vida em minha Vida”, ela é a pessoa mais profunda que conheci (pessoalmente). Eu recomendo. Uma música que se encaixa com esse post é “Storm The Sorrow” do Epica (na minha opinião). Talvez a estátua Rain Man de Kiev tbm tenha te inspirado, kkkk. Eu pensei que vc tendo marido, dinheiro e vivendo em outro país vc não precisasse de mais nada na vida, rsrs. Desculpe pelo comentário complexo, é que eu sou profundo e se passaram muitas coisas em minha mente e meu coração agora. Conhece-te a ti mesmo (Sócrates).

    • Reply Alessandra Araújo November 12, 2018 at 4:01 pm

      Oi Leonardo! Bem vindo ao time das pessoas “estranhas”. Amei a comparação com a Dolores <3 Gosto de Bauhaus, Evanescence já não curto muito. Assisti o clipe da Epica e gostei da letra e da estética. Tive essa fase metaleira e nessa linha eu gostava de Nightwish na fase com a Tarja Turunen. Vou procurar o livro da tua amiga, obrigada pela recomendação. Engraçado esse seu pensamento sobre não precisar de mais nada na vida. Claro que sou muito feliz e grata por ter chegado até aqui, mas "the show must go on" neh? Estou sempre tentando me tornar uma versão melhor de mim mesma. É bem isso aí, conhece-te a ti mesmo. Parece muito simples e fácil, mas não é. E não precisa se desculpar, adorei o seu comentário complexo. 🙂

  • Reply Gabi November 12, 2018 at 10:32 pm

    Ale, a trevosa mais linda dessa interwebs! Adorei as fotos noir, e adoro como você capta tão bem suas emoções. Honestidade e sensibilidade em estado bruto <3

    • Reply Alessandra Araújo November 13, 2018 at 1:40 pm

      Own, Gabi! Linda é tu! Ando cheia de ideias e vou tentar registrar algumas aqui de vez em quando. Você é uma das pessoas que me inspiram a sair um pouco de detrás da cortina (não é lá muito fácil pra mim). <3

      • Reply Gabi November 13, 2018 at 8:12 pm

        Siga tentando, porque o que saí de tras dessa cortina é sempre maravilhoso <3

  • Reply Laura Nolasco November 23, 2018 at 7:24 am

    Eu acho que nunca comentei por aqui, apesar de acompanhar há um tempinho, e preciso dizer: Que post e fotos incríveis!
    Eu tive a sorte de nascer em uma família de bruxas – então minha estranhísse é de família, hahahaha – mas me identifiquei muito com as fotos e o texto.
    Nos dias depois das eleições senti uma necessidade muito forte de me reconectar comigo e intensifiquei os estudos de bruxaria… São coisas que sempre faço, desde pequena, mas senti que precisava me fortalecer nesse momento… Até para que, como você nessas fotos, sejamos luz.
    Fiquei curiosíssima Meninas boazinhas vão pro céu, as más vão à luta… o nome já é uma bela frase hahhaha
    Amei o título também.
    Bom… Acho que é isso que tinha pra comentar. Vivamos nosso poder e nossa força… Dias melhores virão, e lutaremos pra que seja logo.
    Beijos!

    • Reply Alessandra Araújo November 26, 2018 at 3:45 pm

      Obrigada, Laura! Elogio de fotógrafa é bem valioso. 🙂 Caramba, você vem de uma família de bruxas, como é isso? Eu amei que você entendeu exatamente o que eu quis transmitir com essas fotos. Precisamos nos reconectar mesmo com nós mesmas para nos fortalecer. O livro “Meninas boazinhas vão para o céu, as más vão à luta” foi uma indicação de uma professora de Psicologia de Gênero que eu tive na universidade. Essa matéria me abriu os olhos para vários comportamentos que acontecem ao nosso redor e como isso influencia na nossa vida. Amei demais o teu comentário, muito obrigada e TAMO JUNTA! Beijos.

  • Reply Izzy February 14, 2019 at 9:06 pm

    “Falo muito de viagens aqui no blog, mas a viagem mais desafiadora é para dentro de si próprio.” – Que texto foda, Alê. Amei cada palavra, cada “confissão”, cada sentença. Dá vontade de imprimir e guardar como uma carta sua (!).

    Esse seu ensaio ficou perfeito. O que eu mais gostei foi que você colocou a luz e a escuridão dividindo o mesmo espaço, como acontece dentro de todos nós. O legal é que você está muito parecida com a Clarice na primeira foto, até o contorno dos lábios! Achei tão bacana isso! E o livro do Mark Ryden? Ganhou ainda mais meu coração!

    Abraços estranhos.

    • Reply Alessandra February 18, 2019 at 8:48 am

      Exato, sejamos luz nesses tempos trevosos. Saibamos refletir sobre as nossas próprias luzes e sombras para lidar com elas da melhor forma possível. Amei que você reconheceu o livro do Mark Ryden! Coraçõezinhos dark all around! Abraços estranhos para você também.

    Leave a Reply to Alessandra Cancel Reply